Uma futura escola de práticas agro-ecológicas, é um projecto que está a ser desenvolvido com apoios e subsídios da Caritas Nacional, Mosaiko, Misereor, Fundação Evangelização e Cultura, Christian Aid, PNUD Angola, Governo Provincial da Huila, ADRA-ACORD, individualidades…

Padre Jacinto Pio Wacussanga: A iniciativa surgiu devido a crise de fome que começou a assolar Angola desde 2012 e que prevalece até agora, sobretudo na região sudoeste do país, contou o padre em entrevista a Rádio Angola.
Segundo o padre, a escola tem como objectivo ensinar práticas de intervenção agrária positivas para o equilíbrio do ecossistema, isto com vista a redução de “práticas mal pensadas” que repercutem na degradação dos solos.

Ao falar da demora no arranque do projecto, padre Pio Wacussanga lamentou o facto de algumas pessoas pensarem que os benefícios do projecto reverterão para o sacerdote ou à igreja e não para as comunidades. Sem apontar nomes, o padre disse que há “pessoas que pensam que estamos a querer criar uma fazenda enorme para alimentarmos a arquidiocese e seus recursos humanos”.

“Não é isso. É uma escola das comunidades para servir as comunidades, isto para elas mesmas irem aprendendo e assim fazer face a crise. A igreja é só uma facilitadora para que este projecto aconteça”, explicou.

Ao ser implementado, acredita o padre, “não se vai combater só a crise financeira, alimentar e ecológica, mas também a crise do pensamento, crise do pragmatismo”. Para exemplificar a crise do pensamento e pragmatismo, Pio Wacussanga disse: “até agora não se acumulou um rol de experiências para que as pessoas tenham mecanismos de mitigação dessa crise, não tem laboratórios nem grupos de académicos que dêem respostas às comunidades”.

Na linha do tão anunciado programa de diversificação da economia que tem sido divulgado pelo Executivo angolano, o projecto levado a cabo por Pio Wacussanga é uma amostra concreta de onde pode ser investido. E o padre lamenta o recurso a produtos químicos que apenas deterioram os solos.
“A melhor maneira de uma intervenção sustentável é trabalhar com os próprios meios que a natureza tem, ao invés de buscar químicos para fertilizarem as terras, e reciclar os materiais que a natureza tem ou usar materiais recicláveis para se poder produzir alimentos para as comunidades”, frisou Pio Wacussanga.

Adiante, o padre informou que, com este projecto, a escola pretende também concorrer para o aumento da soberania alimentar e, consequentemente, para a maximização do exercício da cidadania. Os beneficiários imediatos da iniciativa são os membros da comunidade dos Gambos, na província da Huíla, mas que vai formar também adolescentes vindos de outras partes atingidas pela fome, estiagem, seca e má nutrição.

“Essas comunidades afligidas pela fome, estiagem, seca e má nutrição são comunidades ricas em recursos hídricos – têm muita água subterrânea”, afirmou.
Ferramentas para tratamento dos solos mediante acompanhamento técnico têm sido distribuídos pelo padre – no âmbito do projecto agro-ecológico – às comunidades rurais do sudoeste do país, isto com apoio das Nações Unidas, avançou Pio Wacussanga.

Pio Wacussanga acrescentou que o projecto ainda não está implementado na sua plenitude por falta de financiamento. Neste momento, disse o clérigo, aguarda que o governo provincial local – com quem está em permanente contacto – construa as infra-estruturas principais – a escola, residências para os alunos e professores
“Até ao próximo ano estamos a sonhar para que tenhamos algumas infra-estruturas para se começar o grande projecto”, perspectivou.

De acordo com a estrutura do projecto agro-ecológico, que vai atender também outras províncias que sofrem com os mesmos problemas – seca, estiagem, fome e má nutrição -, se prevê estabelecer parcerias com universidades angolanas e com especialistas em agro-ecologia da região nordeste do Brasil e de vários países africanos.

Ao finalizar a entrevista, Pio Wacussanga recordou o “assalto às terras em curso” nas províncias do Huambo, Bié, Benguela, Huíla, Kuando Kubango e Cunene, “sem citar outros [assaltos] que estão em carteiras”. O padre apontou o Fundo Soberano, que tem como PCA Filomeno dos Santos, um dos filhos do presidente da República, como encorajador do “assalto às terras” ao “entregar terras a empresários sem o mínimo de requisitos legais”. Lamentou também o “assalto” na exploração da madeira e do granito.

Mais de 14 comunidades aguardam com ansiedade pelo início das aulas sobre agro-ecologia, escola que vai albergar aproximadamente 100 estudantes em regime de internato tão logo o projecto arranque.

Acompanhe aqui a entrevista completa que o Pio Wacussanga concedeu à Rádio Angola: http://www.blogtalkradio.com/radioangola/2016/11/19/padre-pio-lamenta-crise-de-pensamento-e-pragmatismo-em-angola

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