Os angolanos residentes na Inglaterra enfrentam inúmeras dificuldades. A embaixada e o consulado de Angola não servem os interesses da comunidade angolana, tanto que nem prestam apoio quando morre um angolano naquele país. Numa entrevista à Rádio Angola, Gika Tetembwa, activista cívico residente na Inglaterra, lamenta o facto de angolanos na diáspora não terem a oportunidade de votar nas eleições, o que contraria o princípio constitucional segundo o qual todos somos iguais.

Tanto o Executivo, como a bancada parlamentar maioritária, o MPLA, alegam faltam de condições técnicas para justificar a impossibilidade dos angolanos na diáspora votarem. Foi essa a justificação dada em 2008, aquando das eleições legislativas que se realizaram, e também 2012, nas eleições gerais. Em 2017 deverão acontecer novas eleições, também gerais, e não está garantida a votação dos angolanos residentes no estrangeiro.

Consciente do que dispõe o artigo 21.º da Constituição da República de Angola (CRA) – princípio da igualdade -, Gika Tetembwa exorta os angolanos na diáspora a se indignarem contra a violação do direito ao voto protagonizada pelas autoridades angolanas.

“Temos que nos indignar contra isso porque o que está em conta é o direito de cidadania, o cumprimento circular da democracia, e nós aqui na diáspora estamos a ser coarctados. Nós é que temos que mostrar as nossas indignações. Convido a todos os angolanos para começarmos a pensar numa manifestação colectiva aí onde estão, no Brasil, na França, na África do Sul, aqui em Londres”, encoraja o activista.
Segundo o entrevistado, alguns angolanos na diáspora “estão a comprar aquela ideia que os mesmos que fizeram a Constituição estão a passar”. A realização de manifestações defronte as embaixadas de Angola é o mecanismo de pressão que membros da comunidade angolana no estrangeiro têm adoptado para protestar contra irregularidades. Entretanto, “a única maneira que temos de reverter esta situação é fazer manifestação” a exigir que os angolanos no estrangeiro usufruam do mesmo direito que os angolanos em Angola – direito ao voto.

Porém, há angolanos em Inglaterra que se apegam ao pensamento do Presidente da República José Eduardo dos Santos que disse numa entrevista à televisão portuguesa SIC que aqueles que fazem manifestações são arruaceiros.

“Acredito que através da manifestação demonstrando a insatisfação, levar a quem de direito aqui onde vivemos, na tal comunidade internacional, mostrar que o exercício de democracia está ser ofuscado, isso seria bom. Mas qual é a conversa que os nossos irmãos hoje têm? Ahh porque quem faz manifestação não pensa, quem faz manifestação é arruaceiro, o pior arruaceiro foi aquele que assinou a Constituição angolana [onde] está escrito que temos direito de manifestação e de reunião”, afirma.
Há angolanos que dizem existir outros mecanismos de pressão para exigir que se cumpra o direito ao voto dos emigrantes, mas os mesmos que dizem não usam tais mecanismos, deplora Tetembwa, que tem noção do quanto o regime angolano é autoritário e o país carece de mudanças.

“É importante os nossos irmãos sentirem que nós também estamos a lutar porque sentimos a dor. E as pessoas hoje só dizem que quem faz isso, quem vai fazer manifestação, quem se preocupa com isso são pessoas arruaceiras que não têm nada a fazer, infelizmente. Mas tem pessoas também nas comunidades, na diáspora, que estão preocupadas com isso. Então temos que criar um fórum em que nós temos de estar juntos para podermos então ver resolvida essa situação de uma vez por todas, porque não pode voltar a acontecer”, frisou.

MISS ANGOLA INGLATERRA RACIAL

As galas que visam eleger a miss Angola no Reino Unido têm estado marcadas por várias irregularidades. O caso de Leila Lopes, que chegou a ser coroada miss mundo, não é único. O comité miss Angola tem levado para Inglaterra jovens provenientes de outras partes para participarem num concurso que, à partida, deve ser apenas para residentes naquele país europeu.
Várias denúncias já foram feitas mas a situação se mantém. A vencedora do último concurso realizado foi mesmo uma residente local, mas, posteriormente, foi informada que não podia ir a Angola na qualidade de miss Angola na Inglaterra porque já havia outra jovem com a faixa representante desta comunidade.
Charles Mucano, membro do comité miss Angola, é apontado como o promotor de actos de racismo. Segundo Tetembwa, Mucano tem levado à Inglaterra “moças de Portugal, que vêm de outras agências”, para fazer miss Angola no Reino Unido. O activista cívico justifica a sua preocupação com este assunto pelo facto de envolver maltratos psicológicos.
“As nossas miúdas, que têm que deixar um período das suas aulas para poder participar, são completamente assustadas, são maltratadas. Temos fortes evidências [de que] são molestadas psicologicamente”, explica.

Como acção de protesto, Gika e outros membros da comunidade angolana decidiram levar avante uma campanha com vista a não realização do miss Angola no Reino Unido em 2017.
“Esta é a nossa meta, porque este abuso e esta falta de respeito para com as pessoas da comunidade já é demais. Porque nós lutamos para manter as pessoas numa outra forma de pensar, a crescer, ajudar os filhos a estudar para poderem subir na vida e estas meninas pensam que estão a contribuir para qualquer coisa para o seu país e como se não bastasse aparece aqui alguém com ideias selectivas, até raciais, porque aquilo é tipo uma escolha de cor, as mais escurinhas não podem ir representar, temos evidencias de pessoas lesadas, então, nós angolanos da comunidade vamos parar esse movimento do Charles Mucano”, assegura.

Tetembwa avança ainda que, nos termos das leis britânicas, o procedimento de Charles Mucano se enquadra nos crimes de tráfico de seres humanos. Caso Mucano insista em ir organizar miss Angola no Reino Unido de fachada, então “a Ana Paula dos Santos vai ter que vir para lhe tirar aqui da cadeia”.
O envolvimento criminoso da embaixada e consulado-geral de Angola na Inglaterra é lamentado. Charles Mucano já chegou a ser agredido por um angolano em plena gala do miss, numa ocasião em que estavam presentes o embaixador angolano naquele país, Miguel Neto e a cônsul-geral. Nesse dia ambos diplomatas receberam prémios atribuídos pela organização do miss.

FALTA DE RESPEITO AOS ANGOLANOS

“No acto central do 11 de Novembro de 2012, o pai do Samora Neto, o embaixador Miguel Neto, em Manchester, quando se dirigia para a comunidade angolana, começou logo por ofender os angolanos, [dizendo] que nós temos que deixar de viver das ajudas sociais que o governo britânico dá, e que nós temos que deixar de mendigar, e que esta situação de mendigar é uma situação que não é muito boa”, essas declarações foram encaradas com muita tristeza pela comunidade angolana no Reino Unido.
Desde essa altura aconteceram muitas manifestações defronte à embaixada. “Eles alegam que nós vivemos de ajudas sociais, e essas ajudas sociais é que o governo britânico criou para as pessoas que vivem aqui legal, se o governo de Angola não cria isso, não é nosso problema. Se fossem como Paul Kagame, do Ruanda, que veio e disse aos seus cidadãos que não vivam mais da ajuda do governo britânico porque agora estamos a fazer uma concessão para vocês na diáspora […]. Aí é diferente”, compara.

Durante a celebração dos 41 anos da independência, no dia 11 de Novembro deste ano, a comunidade angolana na Inglaterra tomou conhecimento de outra situação: o filho do embaixador – Samora Neto – está a ser acusado de ter desviado 15 mil dólares.

“A gente já sabe e temos ouvido e lido, e a Rádio Angola também tem passado, o quanto tem sido a corrupção perpetuada pelos filhos da oligarquia, daqueles que controlam o poder”, afirma.
Apesar do desvio, Gika realça o facto de Samora Neto ter, também, ofendido a comunidade angolana ao dizer que “são pessoas que estão longe de ter qualidades angolanas e não têm líderes capazes de fazer activar as qualidades angolanas”.

“Isto caiu como uma ofensa. Tivemos há pouco aqui um nosso irmão que faleceu, Valentim Van-Dúnem, levou três meses para enterrarmos essa pessoa. Ninguém apareceu nessa comunidade. Nós, membros da comunidade contribuímos com os nossos poucos. A embaixada de Angola teve um elemento no funeral mas a embaixada de Angola e o consulado geral de Angola é que fizeram a maior confusão no sentido de nós não conseguimos ter fundos, porque diziam que iam enterrar, que iam mandar vir a mãe do Valentim e no fundo não fizeram nada, foi tudo uma mentira. Agora aparece esse individuo, o Samora Neto, a chamar esse tipo de nomes à comunidade. E quando ele diz que há certas atitudes que amordaçam a auto-estima dos angolanos, isso aqui é amordaçar a auto-estima dos angolanos, chamar esses tipos de nomes, então, como consequência, a gente já fez vários programas de rádio, também estamos aqui na Rádio Angola para dizer que nós, no próximo ano 2017, vamos tomar várias atitudes, eles já sabem, o próprio embaixador já sabe como somos, ele conhece, ele sabe o quanto nós fizemos para contestar”, diz.

Ainda sobre as faltas de respeito à comunidade, Tetembwa lembra que, aquando da passagem por Londres do presidente da CASA-CE Abel Chivukuvuku, um grupo chefiado por Luavulu de Carvalho, embaixador itinerante, irromperam pela Chatham House para contestar as declarações de Chivukuvuku naquele fórum muito concorrido pelos partidos políticos que desejam transmitir os seus programas de acção à comunidade internacional.
Um angolano residente em Londres questionou Luavulu se sabia da existência da comunidade angolana na Inglaterra. Em resposta, o embaixador itinerante que não tem gabinete disse: “sei que existe uma comunidade mas que toda a comunidade vive de benefícios, vive de ajudas sociais do governo”.
“Isto feriu muita gente, porque os angolanos aqui trabalham, lutam, os angolanos na diáspora e em toda a parte estão a tentar se reencontrar para voltar e levar alguma coisa para o seu país”, frisa Tetembwa, lembrando que: “O João Pinto, vice-presidente da bancada parlamentar do MPLA, que viveu em Portugal com visto de turismo, que também foi emigrante, que não foi de bolsa de estudo, também tem a mesma conversa, nos chama de nguendeiros, [diz] que fugimos. Então, a gente pergunta para quê esse sentimento contra nós, dentro do nosso governo existe um sentimento anti-emigrante, olha que Agostinho Neto, o líder do MPLA que eles tanto elevam, viveu 11 anos consecutivos em Portugal, foi emigrante, e isto então nos deixa de alma quebrada. Mas nós somos a geração de Angola que veio aqui para lutar e não vamos nos calar e vamos fazer sentir essa nossa insatisfação já no próximo ano que está aí já prestes a chegar”.

Acompanhe aqui a entrevista que o activista cívico, Gika Tetembwa concedeu à Rádio Angola: http://www.blogtalkradio.com/radioangola/2016/12/28/pior-arruaceiro-foi-aquele-que-assinou-a-constituio-angolana-diz-activista

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