Laurinda Gouveia. Foto: Eliza Capai/ Agência Pública

A activista Laurinda Gouveia, 28 anos, que em 2015 e 2016 fez parte do processo dos “15+2”, foi escolhida pela organização não-governamental Friends of Angola (FoA), para concorrer no prémio “Roger N. Baldwin Medalha da Liberdade” organizado pela Human Rights First, em Nova Iorque, Estados Unidos de América.

Fonte: Rádio Angola

Numa nota enviada à Rádio Angola, que justifica as razões de a escolha ter recaído à Laurinda Gouveia, a FoA, organização defensora dos direitos humanos e boa governação, refere que a “Friends of Angola tem a honra de nomear uma defensora exemplar dos direitos humanos, que já contribuiu muito para Angola e tem muito mais para oferecer no futuro”.

Segundo a Friends of Angola (FoA), a activista em causa, apresenta particularidades que a distingue, primeiro, por ser “activa na sociedade civil em Angola”, pois, entende a FoA, “Angola possui um espaço relativamente pequeno da sociedade civil devido ao governo repressivo e ao isolamento linguístico de seus vizinhos, inibindo o trabalho de solidariedade, ainda assim é uma mulher activa”.

A outra causa que distingue a activista Laurinda Gouveia, que de acordo com a Friends of Angola, motivaram a sua escolha, é o facto de ser uma “acérrima” defensora dos direitos humanos e “trabalha para defender os direitos das mulheres em Angola”.

Para a FoA, ser um activista dos direitos humanos em Angola é um desafio enorme, fazer isso como uma mulher, expõe uma pessoa a danos especiais, o que fez com a activista Laurinda Gouveia fosse presa diversas vezes, espancada, condenada e perseguida pelo trabalho que faz.

Com este prémio, refere a nota da Friends of Angola (FoA), a activista Laurinda Gouveia poderá “beneficiar” de várias maneiras com a concessão da “Medalha da Liberdade”, ao viajar para os Estados Unidos de América (EUA), se possível, para aceitar o prémio, onde poderá encontrar contactos valiosos que podem ajudar o seus trabalhos futuros, “além disso, essas pessoas fornecerão uma base de apoio para elevar o perfil da senhora Laurinda Gouveia”.

Trajectória na luta pelos direitos humanos

Num breve retrato sobre o percurso da Laurinda Gouveia como activista cívica, a jovem conta que, começou a luta pelos direitos humanos em 2011, nessa altura, segundo ela, era muito jovem porque contava com apenas 19 anos de idade. Descreve que viveu e cresceu com os seus tios por afinidade, porque muito cedo, contou, os seus pais faleceram e teve que viver com família adoptada em Luanda, capital de Angola e com eles, disse Laurinda Gouveia aprendeu, que diante das injustiças, “não podemos nos calar, mais isso era simplesmente teoria, mas quando comecei a meter em prática com activismo a família ficou espantada”, lembrou.

Recorda que se envolveu em “grupos ou movimentos de jovens”, que tinham o mesmo sonho que o seu, que era “ter uma Angola livre no verdadeiro sentido, sem injustiça e que as pessoas fossem respeitadas de igual forma, livre da corrupção, compadrio, nepotismo e violação constante dos direitos humanos”.

Laurinda Gouveia, juntamente com outros jovens organizaram manifestações de rua que exigiam a demissão do então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que para ela e os activistas da época, “Dos era o causador de todos os problemas, já que estava no poder há 32 anos”, foi então o período que surgiu o slogan “Zé Du fora: 32 é Muito”, “ Liberdade ou Morte”

“Nessas manifestações eu também era repórter para à página da Central 7311, na rede social facebook, em que procurava reportar as atrocidades que eram cometidas pelas autoridades angolanas contra os manifestantes, desde os espancamentos, tortura perseguições e mais”, recordou.

Em 2013, lembrou, foi agredida por agentes dos Serviços de Segurança do Estado (SINFO), quando em companhia de outros activistas realizavam protestos que visam a libertação do activista Nito Alves, que estava preso alguns dias na Comarca de Viana, por ter mandado fazer t-shirts com os dizeres: “Quando a guerra é urgente e necessária,” pensamento este que foi escrito pelo professor e escritor Domingos da Cruz, cuja parte frontal das camisolas estava escrito: “Zé Du: Ditador nojento, fora”

Em 2014 por conta da manifestação em que o grupo exigia a destituição do José Eduardo dos Santos, em que ela estava como repórter do “Corrente do Kwanza”, uma página que denunciava as violações dos direitos humanos, foi raptada e tortura por comandantes da Polícia Nacional e agentes do SINFO, ao que disse, a mando de José Eduardo dos Santos.

“Por conta dessa agressão a minha família decidiu tirar-me de casa, a igreja em que frequentava decidiu afastar-me das actividades, os meus amigos e amigas se afastaram de mim, porque todos começaram ser conotados, serem ameaçados”, voltou a lembrar.

Fez parte do processo dos “15+2”, que em Março 2016 foi julgada e condenada a 4 anos e 6 meses pelo juiz da 14ª Secção dos Crimes Comuns do Tribunal Provincial de Luanda, Januário Domingos, por crime de actos preparatório de rebelião e associação de malfeitores, tendo sido libertada três meses depois pelo Supremo Tribunal, por meio de uma Lei de Amnistia aprovada na altura.

Disse que nos últimos tempos tem se debatido muito com a questão de desemprego e inserção das mulheres na sociedade, fruto disso, afirmou participou em várias manifestações “para que as políticas públicas sejam transversais a todos cidadãos e cidadãs”, disse.

“Conseguimos pronunciamento do Presidente para esta situação, entretanto ainda não está resolvido o problema, em 2019 realizamos uma manifestação em frente da Assembleia Nacional, apesar de eu na altura estar gestada de oito meses”, mesmo assim, lamentou “fui espancada pela polícia, assim como os outros companheiros, que se juntaram a luta”.

De realçar que o prémio “Roger N. Baldwin Medalha da Liberdade”, já distinguiu várias organizações e activistas dos direitos humanos, conforme descrito abaixo:

2018: Organização para os Direitos Humanos de Mwatana (Iêmen)

2016: Janvier Murairi Bakihanaye; Activista contra a escravidão (República Democrática do Congo)

2014: Kholoud Saber Barakat; Activista egípcio

2012: Centro Bahrain de Direitos Humanos (Bahrain)

2010: Jesus Tecu Osorio; Fundação New Hope, Río Negro (Guatemala)

2008: Hawa Aden Mohamed; Centro de Educação para a Paz e o Desenvolvimento de Galkayo (Somália)

2007: Ivan Cepeda Castro; Movimento Nacional das Vítimas de Crimes Estatais (Colômbia)

2004: Amigo Ngonde Funsu; ASADHO (República Democrática do Congo)

2002: Dr. Theirno Sow; Organização Guineense de Direitos Humanos (Guiné)

1998: Kek Galabru, Thun Saray; LICADHO, ADHOC (Camboja).

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